Poucos candidatos chegaram à nota mil ano passado, e a teoria é de que a correção esteja mais rigorosa. Conversamos com professores para entender.
Na última edição do Enem, apenas 12 estudantes conquistaram a nota máxima na redação. Para se ter uma ideia, no ano anterior, em 2023, foram 60 candidatos com nota mil. Mas, afinal, houve alguma mudança na correção dessa etapa que justifique essa queda? A resposta é sim e não. Vem entender melhor o que rolou.

Segundo Sérgio Paganim, professor de redação do Curso Anglo, não houve uma mudança objetiva nos critérios de correção. As cinco competências continuam as mesmas, corretores continuam sendo treinados para observar os mesmos elementos nos textos: a linguagem, a adequação ao tema, o repertório, a estrutura da dissertação, a coerência, a coesão e a proposta de intervenção.
“O que mudou em 2024 foi, na verdade, um sensível aumento do rigor da banca em relação a alguns elementos da dissertação. Então, não teve regra nova, uma grade de correção inédita, mas um olhar mais acurado, mais cuidadoso que a banca dedicou para modelos prontos da dissertação e os repertórios de bolso”, explica Sérgio.
Os modelos prontos são redações que circulam na internet, parecidas até com receita de bolo, e que em tese poderiam ser adaptadas para qualquer temática social.
“Basicamente, o que a gente vê na internet, ou o que os alunos contam, é que começa com a Constituição Federal, encaixa um argumento sobre a ineficiência do governo com o repertório X e termina o próximo parágrafo com falta de debate sobre o assunto com o repertório Y”.
Estes modelam revelam uma forma genérica de analisar o tema, muito pouco ou quase nada articulada com a coletânea, frase-tema ou com a própria tese que o autor desenvolve. No ano passado, os corretores teriam sido orientados pelo Inep a descontar pontos destas redações copiadas, com um treinamento que ajudava a identificá-las. Os candidatos poderiam perder de 40 a 80 pontos.
De acordo com Thiago Braga, autor de Língua Portuguesa do Sistema de Ensino pH, essa mudança é bem-vinda.
“Os estudantes precisam se preparar como candidatos de redação. Os textos prontos e exemplares que eles leram são apenas fontes de inspiração, e não motivos para cópia. Assim, o candidato precisa buscar sua autoralidade dentro do modelo proposto pela banca, a partir do entendimento desse modelo, para que desenvolva referências próprias.”
Então como se preparar para a edição de 2025?
Thiago explica que o estudante deve criar construções frasais próprias, demonstrando que é capaz de cumprir as competências exigidas pela banca. Para isso, é importante ter referências e utilizar estruturas prontas apenas como inspiração, sem copiá-las.
Já em relação ao repertório, uma dica é entender o conceito de um pensador, mas não necessariamente saber de cor o que ele diz – parafrasear ou explicar o pensamento já o suficiente. E vale ressaltar que o importante é que essa ideia seja muito bem articulada com o tema que a banca oferecer e com a tese que o candidato desenvolver.
“Na prática, o que vale mais é como essa citação está conectada com o tema e a tese do que a citação em si. Essa é a grande questão para evitar ser punido com relação a argumentos coringa”, finaliza Sérgio.